O BRASIL QUE OS JOVENS NÃO CONHECEM.

telefoneAos 44 anos, não quero me chamar de velho, mas também não sou mais um jovem.
Essa idade me torna um felizardo, por ter participado de uma realidade tão diferente da atual, há apenas 20 0u 30 anos atrás, e ainda estar no pique de desfrutar das  modernidades.

Os mais jovens não tem condições de avaliar essas mudanças. Já encontram tudo pronto, mastigado. Não existe quase nada que nos choque hoje em dia. Cabelos coloridos, piercings, tatuagens malucas, roupas exóticas, implantes, bizarrices em geral, tudo ja foi visto, e o que não foi, ja não impressionará ninguém quando chegar.

Assim acontece também com a tecnologia.
Todos os dias vemos reclamações sobre as prestadoras de serviço de telefonia fixa e móvel.
Reclamamos da demora do atendimento ao consumidor, da conexão que está mais lenta ou caiu, da demora de 2 dias para instalarem uma nova linha, do preço da mensalidade da banda larga 10Mb.

Então, pra quem não conheceu o Brasil dos anos 70 / 80 e meados de 90 , vou dar uma rápida pincelada no panorama:

Telefonia Fixa: A telefonia fixa estava nas mãos do estado. A Embratel era quem prestava o serviço, e que mandava em todo o sistema.  Para se comprar uma linha, você fazia a inscrição e ficava aguardando os planos de expansão, que levavam anos, até ter seu telefone. Não tinha a quem reclamar. O governo não investia o suficiente, e bairros mais afastados e de baixa renda não tinham disponibilidade de linhas. Mudança de endereço era uma loteria. Poderia não haver viabilidade de transferir sua linha. Se tivesse, o numero mudava. Tudo isso gerou um comercio paralelo que deixou muita gente rica. Aluguel de telefone era muito rentável. Mas o cúmulo eram empreseas que emprestavam dinheiro a juros abusivos, com a linha do cliente como garantia. Elas nem faziam questão de receber o empréstimo. Se houvesse atraso de 3 meses, eles vendiam a linha telefônica, que dava um lucro de varias vezes o valor do empréstimo.

Telefonia Celular: Tudo bem que os aparelhos eram grandes e um pouco caros. O problema maior era o mesmo da telefonia fixa: Pouca disponibilidade para muitos interessados. Também era comum se cadastrar e esperar muitos meses por uma vaga. Não havia pré-pago. O interessado devia ter o crédito impecável , paciência e dinheiro. Tudo era caro. É claro que também havia um mercado paralelo vendendo  as cartas de habilitação, ou as “linhas” em uso, com muito ágio.

Inflação: Durante minha vida, eu acompanhei por 3 vezes o corte de  zeros em nosso dinheiro. Os valores de coisas baratas chagavam na casa de milhões. Para as coisas mais caras, faltavam dígitos nas calculadoras, e espaço para escrever nos formulários.  A solução era mudar o nome do dinheiro e tirar mil, ou 3 zeros. Na minha carteira de trabalho, na adolescência, eu estava registrado com alguns milhões de cruzeiros. Se um auxiliar de escritório ganhava milhões, uma casa custava bilhões. Hora de tirar 6 zeros.
Conheci o Cruzeiro, Cruzado, Cruzados Novos , URV, e Real.
Com a inflação de quase 50% em 6 meses, os preços tinham reajuste diário! Não tinha como comparar preços, saber qual o supermercado mais barato. Os preços dos encartes valiam no maximo por 3 dias. A cada compra o valor era outro. Os salários tiveram que ser reajustados a cada 3 meses, ou a cada vez que a inflação chegasse 20% ao mês, senão teu salário não dava nem pra comida.
Comprar a prestação era uma aventura. Se ela fosse fixa, chutavam taxas tão altas, que as primeiras eram muito difíceis de pagar, e as últimas não representavam grande coisa. Se fossem variáveis, você nunca sabia quanto ia pagar no mês seguinte. Mas prazo longo, só em consórcios. Em financiamento não dava.

Censura: O governo militar controlava tudo: censurava musicas, revistas, peças de teatro, filmes, manifestações e livros. Os adolescentes que sempre são fãs de fotos de mulheres nuas, tinham que se contentar em ver seios nas revistas. Se aparecesse qualquer vestígio de pelos pubianos nas fotos, a revista era recolhida das bancas. Falar mal do governo, nem pensar. Tudo o que não se encaixasse no padrão dos censores era taxado de subversivo e suprimido. Muita gente desapareceu, foi torturada, e os mais famosos exilados.

Usei muito um telefone do tipo da foto acima. Demorava pra discar o numero, e frequentemente o dedo escapava e dava erro.
A gente ouvia falar de coisas maravilhosas nos Estados Unidos, tais como discagem por tom, linhas telefônicas à vontade, com instalação em poucos dias. Celulares com tarifas de minutos baratos, internet com mensalidade baixa e uso ilimitado, preços estáveis, com inflação de 3% ao ano, e prestações fixas e longas.
Aqui a internet era por hora e custava caro, a inflação era galopante, não havia o credito de 60 mesmes pra comprar nada, e a liberdade de expressão era tolhida.
Ficávamos imaginando se algum dia, durante nosso tempo de vida, teríamos o privilégio de ver algo parecido no brasil. E esse dia chegou faz alguns anos.

Por tudo isso, hoje sou grato ao que temos.
Não surto quando a internet de 10Mb, que custa a merreca de R$ 50,00 por mês falha.
Fico grato quando me oferecem 3 linhas com minutos ilimitados, internet 4Mb com ip fixo, instalação grátis, em 2 dias, por R$ 148,00 mensais.
Sou grato por ter noção do preço das coisas, pois eles se alteram muito pouco no ano.
Adoro ter acesso aos gadgets eletronicos poucos meses após serem lançados no exterior (mesmo pagando o triplo).

Sou grato por poder me expressar livremente, emitir opiniões políticas, criticar o governo, fazer manifestações se quiser, publicar idéias num blog, e até mesmo ver porn na net, que ninguem é de ferro.  :P

Sou fascinado por ter acesso a qualquer musica, informação, vídeo, artigo ou foto, em minutos. Não preciso mais daquela tonelada de discos de vinil, nem daquelas horríveis fitas K-7.

Como eu disse, quem é muito mais novo não tem parâmetros para avaliar o impacto de  todas essas mudanças. E quem é muito mais velho, não usufrui tanto de muitas dessas novidades.

Mas que é uma época maravilhosa, isso é!

3em1

Este post foi publicado em 3 de julho de 2009 às 10:43 na categoria Opinião. Você pode acompanhar todas as respostas a este post assinando o feed RSS 2.0. You can leave a response, or trackback from your own site.

8comentário

 1 

Estou beirando meus trinta anos e participei de quase todas as evoluções descritas neste texto (exceto pela censura). Lembro do luxo de ter uma linha telefônica (que acho que era pela telebrás, não embratel) comprando ações da estatal que custavam o olho da cara. Lembro da mudança das moedas com cortes nos zeros (sempre mais do mesmo). Cruzado, cruzeiro, cruzeiro real… A famosa URV que eu ainda não sei porque existiu (serviu pra gente treinar cálculos de multiplicação :P ).

Lembro também do primeiro celular do meu pai, que era pesadão e que precisava de duas baterias para aguentar o dia todo. Lembro das BBS e do boom da internet no começo dos anos 90. Olho pra trás e sinto falta do tempo de criança… Mas só também.

Hoje vivemos em um tempo diferente com necessidades são diferente. Vivemos no imediatismo, nos acontecimentos que viram notícias em tempo real. Vivemos no comércio sem fronteiras e que está a apenas um clique de distância. Por viver hoje inserido nesse meio, eu reclamo sim da pane da internet, telefonia porque precisamos dela. A criação de novas tecnologias nos leva a ter necessidades e problemas que não tínhamos antigamente. Antigamente os problemas eram outros… as pessoas sempre serão insatisfeitas por natureza.

Não ter uma linha telefônica (ou dar um olho pra ter uma) era ruim sim. A privatização trouxe sim a facilidade e a diminuição do preço na obtenção do serviço. Mas a popularização não foi acompanhada do aumento de investimento na infra-estrutura das mesmas. Privatizar foi bom sim. Pagar pelo serviço de telefonia e internet e não ter é como ficar um dia inteiro sem luz e sem água. Tornaram-se necessidade básica. Vivemos em um mundo diferente e precisamos acompanhar.

Em 3 de julho de 2009 às 11:14
MadaFoka :
 2 

Ou seja: A informática veio para solucionar problemas que não tínhamos antes do computador. Hehehe.
Boa analise, Edu.

Em 3 de julho de 2009 às 11:24
 3 

Pra solucionar e, principalmente, pra gerar problemas que não tinhamos antes do computador. :P

Em 3 de julho de 2009 às 11:27
Carlos Gabriel Arpini :
 4 

Ótimo texto. Estou na casa dos 30 e realmente hoje não se tem a real dimensão do avanço tecnológico sofrido na última década. A (r)evolução não foi só no ramo da tecnologia pessoal mas também da alimentação (a hoje demonizada gordura-trans foi a salvação da indústria de alimentos), da medicina entre outras. Credito muito disso ao livre trânsito de informações. Abraços!

Em 3 de julho de 2009 às 11:44
Gabilan :
 5 

Falou tudo, Barão!

Lembro que o telefone de casa era 75-8590 (sim! apenas 6 dígitos na capital e lembro que eram 4 dígitos no interior, lá na casa da minha vó!) e a linha era comprada da Telesp (no caso de nós, paulistas).
Lembro do meu pai todo orgulhoso por ter um “tijolar” da Telesp Celular (e eu ter anos mais tarde um BCP). Celualr com chip??? Só se fosse acompanhado de um Cheetos!

Ainda me lembro de ir no mercado com a tabela de preços do Coronel Sarney para poder fazer o comparativo de preços e comprar onde era mais “barato” (ou melhor: menos caro!)…

E como me esqueceria da aventura que era para assistir um show do Arrigo Barnabé (isto vc lembra melhor que eu!) ou assistir uma peça de teatro com alunos da PUC?

Lembro de calcular tempo das músicas para montar aquela K-7 bala para escutar no meu StereoBoy, um concorrente barato do Sony Walkman (e com isto jamais me esqueço que uma fita K-7 de 60 pode receber quase 31 minutos de audio de cada lado e que na de 90 cabem 47 folgados).

Saudades? Sí, pero no mucho!
Ainda bem que somos capazes de viver o momento atual e estarmos preparados (ou pelo menos tentando) para o futuro. Ou seria presente/passado já?

Abraços eternos, Barão!

Em 3 de julho de 2009 às 11:57
Tiro :
 6 

Lembro quando depois de muito tempo recebi minha carta para comprar o meu primeiro celular.

Perdi um dia inteiro de trabalho na cia telefônica e no final da tarde mandaram a gente voltar no dia seguinte porque haviam acabado os aparelhos…

O engraçado é que meu chefe nem reclamou. Parecia algo tipo ir doar sangue…todos se compadeciam dequele momento importante na vida do sujeito.

O celular era um Motorlola750-tijolão. Quem tinha grana depois trocava pelo moderníssimo e estiloso StarTac…

Em 7 de julho de 2009 às 9:38
Tiro :
 7 

OPs, Só pra completar (sem trocadilho):

Até hoje é comum ver as pessoas com mais de 40 usarem a expressão:

“Que número vc discou?”

Hahaha. Entrega a idade na hora…

Em 7 de julho de 2009 às 9:41
MadaFoka :
 8 

Verdade!
A gente fala discar.
E chama de Linha de celular.
Se é celular não tem linha, porra!
hehehe

Em 7 de julho de 2009 às 10:10

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